Uma escola do Rio Grande do Sul, Brasil – Institui√ß√£o Evang√©lica de Novo Hamburgo (IENH) – decidiu fazer em Maio de 2017 uma festa com o tema ‚ÄúSe nada der certo‚ÄĚ, em que os alunos se vestiram da profiss√£o que seria o seu √ļltimo recurso, ou seja, caso os seus planos para o futuro n√£o corressem com eles haviam planeado.

No entanto, quando as fotos da mesma surgiram na internet atrav√©s do seu perfil do Facebook, acabaram alvo de fortes criticas devido ao facto de estarem a incentivar os alunos a menosprezar certas profiss√Ķes, como empregada de limpeza, porteiro, entre outras.

Estes acabaram obrigados a retirar as imagens da p√°gina e a emitir um pedido de desculpa p√ļblico.

Contudo, esta situação acabou por reavivar a memória de alguns internautas que se lembraram de que a primeira escola a organizar uma festa deste género foi o Colégio Marista Champagnat, de Porto Alegre, Brasil, em 2015, sendo que um homem chamado Márcio Ruzon, filho de porteiro, decidiu escrever-lhes uma carta aberta como resposta à iniciativa da escola em relação à festa.

Esta foi a carta:

“Ao Col√©gio Marista:
Meu pai aposentou-se como porteiro. O mesmo que voc√™s t√™m a√≠ na entrada do Col√©gio, que os pais ‚Äúque deram certo‚ÄĚ passam e nem cumprimentam.
Ent√£o, falando do meu pai, ele trabalhava feito um condenado (ali√°s, mesmo depois que se aposentou teve que voltar √† portaria pra completar a renda). O que meu pai recebia de sal√°rio era uma mensalidade que as fam√≠lias ‚Äúque deram certo‚ÄĚ pagam pra voc√™s ensinarem essa √©tica (ou falta dela) aos estudantes.

Ele tinha uma Barra forte preta e com ela ia de sol a sol, chuva a chuva, noite a noite, cuidar de f√°bricas ou de condom√≠nios ao estilo que os alunos moram ou que os pais ‚Äúque deram certo‚ÄĚ trabalham como Diretores, Gerentes.
Aprendi a profissão com meu pai. Fui porteiro por anos. Vi o que é você comer em pé ou no banheiro porque não tem ninguém pra substituí-lo nos intervalos. Cansei de atender pessoas na guarita enquanto mastigava um ovo frio.

Já usei papelão como mesa em cima da privada para almoçar.
Col√©gio Marista, meu pai n√£o deu certo. Criou tr√™s filhos junto com a minha m√£e que ficava apreensiva em casa: -‚ÄĚ Ser√° que ele volta?‚ÄĚ Porque meu pai pegava estradas perigosas de madrugada, aliando-se ao fato de muitas vezes cuidar de galp√Ķes abandonados,que era alvo de bandidos.

Mas ele n√£o deu certo.
Conseguiu sustentar 3 filhos (e minha mãe administrando como uma Economista) com pouco mais de um salário, hoje todos bem e com família, mas infelizmente ele não deu certo.
Meu pai não é desses pais bacanas que param aí na frente do Colégio, com Cherokees, Tucson, sorrindo pra quem convém e pisando nos descartáveis.
Meu pai tem um Palio que vive quebrando, e mesmo debilitado pela idade, levava todos os netos √†s escolas p√ļblicas. Levava e buscava.

Mas, que pena! Meu pai n√£o deu certo.
Quem deram certo foram essas famílias que dependem da faxineira, do porteiro, do zelador, da cantineira, do gari, da empregada doméstica. Eles deram certo!

Ainda bem que muita gente ‚Äúd√° errado‚ÄĚ na vida, sen√£o quem iria preparar o lanche dos filhos que v√£o para o Col√©gio Marista? O pai? A m√£e? N√£o sabem nem como ligar um fog√£o! Mas deram certo, n√£o √©?
Fique um dia sem um gari na sua rua e no dia seguinte voc√™ j√° est√° ligando na prefeitura fazendo birra! U√©? Pega uma vassoura e varre! Voc√™ n√£o ‚Äúdeu certo‚ÄĚ?

Fique sem porteiro no condomínio e mundo para. Não sabem descer pra atender o motoboy? Tem medo de quem seja? Pode ser um ladrão, não é? Deixa que o porteiro arrisca (sem seguro de vida) a vida por você (com seguro de vida).
Gente que n√£o deu certo existe pra isso: mimar os que deram certo.
Tenho orgulho de ter um pai que n√£o deu certo, Col√©gio Marista. E eu tenho orgulho de n√£o ter dado certo tamb√©m. J√° pensou, criar minha filha num ambiente que debocha de profiss√Ķes, que em vez de promover a isonomia e empatia, fomenta a segrega√ß√£o e a eugenia?

Deus me livre!

Aliás, por falar em deus, vocês são de formação católica certo?
Se nada der certo, voc√™s v√£o virar carpinteiro tamb√©m? Embora eu sendo agn√≥stico, respeito muito um carpinteiro que ‚Äún√£o deu certo‚ÄĚ e que voc√™s finjem amar. Que feio, Col√©gio! Ensinando crian√ßas a desprezarem seu Mestre?
Enfim, falei demais. Obrigado pela li√ß√£o de hoje. Talvez tenha sido o √ļnico ensinamento que voc√™s deixaram:
Se nada der certo, vou para o Col√©gio Marista. L√° pelo menos eu posso esconder meu ser vazio atr√°s de um patrim√īnio que consegui pisando nos outros.

Viu, a li√ß√£o de voc√™s acabou ‚Äúdando certo‚ÄĚ!”

Fonte: Pragmatismo Político

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