Olá Dona Susana,

Sei que nunca gostou muito de mim, não sei se pelo meu mau feitio, se pela forma como os amigos do seu filho falavam de mim, se por acreditar que o seu filho merecia melhor, se por não me achar bonita, se porque eu discutia com o seu filho na sua frente, se porque eu fui embora sem dizer nada, bem, há uma infinidade de possibilidades para a sua implicância com a minha pessoa, mas receio que desconheça o seu menino.

Na verdade não o conhece tão bem quanto eu.

Sei que acredita que ele é o modelo de homem que qualquer mulher sonharia, sei que acredita que ele é um bom rapaz, com princípios e carácter.

Sei também que acredita na imagem que ele lhe passa, não só dele, mas de mim, depois que terminamos.

Posso até fazer uma lista com os pontos negativos que ele me deu:

– sempre fui impaciente;

– sempre discutia em frente à família e aos amigos;

– sempre resmungava quando ele desmarcava o que tínhamos combinado;

– sempre amuava sem razoes aparentes;

– sempre o culpava de todas as adversidades da nossa relação;

– provavelmente menti e traí;

– não gostava da postura dele frente aos meus pais;

– os meus pais implicavam demasiado com ele.

Mas não me vou alongar muito mais, até porque o que lhe estou a escrever, já ele lhe disse pessoalmente, mas antes que pense que fui uma aproveitadora, interesseira, egoísta e presunçosa (sabendo que já o pensa), não o sou.

Embora uma mulher cheia de defeitos, há algumas coisas que preciso esclarecer quanto ao seu filho.

Ele não é o bom rapaz com princípios e carácter que você acredita que ele seja. Fui impaciente porque ele levava a minha paciência aos extremos, fazendo de mim uma mulher fria.

Discutia em frente à família e aos amigos, porque ele me desrespeitava, sentindo-se em casa, ele acreditava que podia pisar a mulher que todos os dias aturava a sua má educação.

Resmungava quando ele desmarcava o que tínhamos combinado, porque ele o fazia constantemente, ele trocava-me pelas discotecas à noite, pela bola ao domingo, pela praia ao sábado com os amigos e todas as semanas o carro estava avariado apenas porque sim, coincidência não?

Amuava sem razoes aparentes mas com um infinito de razoes, era o desrespeito, as traições que aguentei calada, as chamadas que eu fingia não ver. Culpava-o das adversidades da nossa relação, porque elas eram causadas por ele mesmo, que não era homem suficiente para assumir a responsabilidade dos seus erros.

Nunca lhe menti ou traí, omiti apenas uma vez a verdade, disse-lhe que estava ocupada no trabalho e que não poderia sair mais cedo, quando na verdade me encontrava a preparar-lhe aquela festa surpresa gigantesca na qual a senhora esteve presente, e ele não compareceu, porque se encontrava nos braços de outra.

Não gostava da postura dele frente aos meus pais, porque ele era demasiado convencido, não o homem humilde que você pensa que criou.

Os meus pais implicavam demasiado com ele, sim é verdade! E tudo porque eles sabiam que:

EU MERECIA MELHOR!

Posto isto, fui embora sem dizer nada, apenas porque não queria estragar a imagem dele frente ao seu bando de amigos idiotas e frente à família que o criou com todo o amor do mundo. Mas escrevo-lhe agora esta carta, não para me vingar, mas para lhe mostrar, talvez não fosse de todo a nora perfeita, mas amei o traste do seu filho e suportei tudo o quanto pude, como, acredite, nenhuma outra irá suportar.

Então se você pensa que criou um príncipe, lamento desiludi-la com esta verdade, você criou um monstro.

Com carinho, desta que provavelmente você nunca voltará a ver.

Por: Letícia Brito

Imagem de capa: kikovic, Shutterstock